segunda-feira, 17 de junho de 2013

UMA REPORTAGEM SOBRE V.T., O JUDEU SOBREVIVENTE QUE NÃO GOSTA DE FALAR SOBRE O HOLOCAUSTO, POIS SABE QUE NENHUM RELATO SE COMPARARÁ COM A REALIDADE ENFRENTADA POR ELE

Foi difícil convencer V.T., 87 anos, a falar sobre o Holocausto. A justificativa é bastante compreensível. Segundo ele, não há palavras que possam dar a dimensão do que foi a perseguição dos nazistas aos judeus. Ele está certo. A insistência por uma entrevista, porém, valeu a pena para o registro histórico. Depois de três visitas ao local de trabalho, sem poder gravar e com a exigência de não identificá-lo (ele permitiu apenas fotos), V.T. contou o que viu e viveu.

V.T não queria dar entrevista e só aceitou depois de muita insistência da reporter.

         Ele, provavelmente, é o último sobrevivente do Holocausto que reside em Curitiba e tem no braço esquerdo a tatuagem, feita brutalmente, com as iniciais do campo de trabalho e o seu número de prisioneiro. “Foi tortura. Eles tinham várias agulhas com tinta na ponta que estavam presas numa madeira. Baixaram as agulhas direto no meu braço e, pronto, depois de dois segundos o número ficou marcado na pele.” Ele nunca pensou em tirar a marca, mas teve de aprender a conviver com ela, principalmente quando vai tomar banho.

V.T foi para campo de trabalho forçado e teve marcado no seu braço o número de prisioneiro e as letras iniciais do campo. Uma das primeiras torturas pelas quais passou

         Foi no campo de Shargorod, onde ele viveu forçadamente de 1942 a 1944, que testemunhou as atrocidades. Havia 15 mil presos entre ciganos e judeus. Esses últimos tinham de vestir o pijama listrado. V.T. acordava às 6 horas para responder à appel (chamada) e, quem não ia, era morto na hora. Às vezes, a chamada demorava horas para ser finalizada, o que fazia com que os mais esgotados caíssem mortos de fome e frio. Também viu os que não tinham mais nenhuma esperança e se grudavam na cerca elétrica de arame farpado para acabar com a própria vida. Os prisioneiros mais velhos do campo, conta ele, ficavam com o serviço mais humilhante: tinham de tirar os cabelos dos mortos e lhes arrancar os dentes. Os alemães comercializavam o cabelo e queriam saber se havia dentes de ouro. “Eu não fiz isso porque tinha 17 anos, mas vi os mais velhos serem obrigados a fazer.”
         Depois, os corpos eram levados em um barracão e ficavam ali até o trem ir buscá-los. “Quando saí do campo, comprei um sabão que vinha com um carimbo escrito em alemão que seria gordura de judeus. Veja senhora, fizeram sabão com os judeus mortos”, afirma.


Nenhum parente de V.T sobreviveu ao Holocausto. Nos campos, ele viu coisas horríveis como judeus sendo obrigados a arrancar dos judeus mortos cabelos e dentes


Horror e fome
         O trabalho de V.T. era infinito. Ele e outros prisioneiros tinham de construir e reconstruir estradas. As que terminavam de fazer eram bombardeadas pelos partisans (guerrilheiros) ou pelos soviéticos, então, todo o trabalho recomeçava. Para tanta força empreendida, porém, ganhavam uma comida miserável. “Era disputa de comida o tempo todo. Eu saí de lá com 40 quilos.”
         Ao ouvir o barulho dos bombardeios, em 1944, V.T. sabia que a vida no campo de trabalho estava perto do fim. “Os soviéticos chegaram rápido, então não deu tempo de os nazistas fuzilarem todo mundo. Pois era isso o que eles faziam.” Os soldados alemães fugiram e deixaram os uniformes, que foram queimados pelos prisioneiros com uma cantoria de comemoração. “Lembro até hoje do nome dos dois soldados russos que me salvaram e saíram comigo do campo”, conta, com ar de alívio. Os americanos lhe deram suprimentos. Tinha de ir comendo aos poucos para acostumar o corpo a ingerir novamente a quantidade de nutrientes necessários para sobreviver. Alguns prisioneiros que saíram do campo, ao se alimentar em grande quantidade e muito rápido, morreram de congestão.
         No campo de refugiados, V.T. ganhou da Internacional Refugee Organization (IRO) um documento, parecido com um passaporte, que lhe “abria as portas” para recomeçar a vida. Esse documento, que ele fez questão de mostrar, o identificava como refugiado e, por meio dele, conseguia as mais diversas ajudas: desde comida até passagem para outros países.
         “Um amigo foi para a Venezuela e depois me escreveu dizendo que estava bem lá, mas que eu deveria ir ao Brasil porque era um país que carecia de tudo para crescer, por isso seria promissor. E eu achava que aqui se falava espanhol.” V.T. desceu em Recife e sobre a vinda dele a Curitiba, diz, sorrindo, é outra história.





Comentário do Grupo:
Casos como de V.T são muito comuns, afinal o Holocausto causou não só dor física, emagrecimento, fome e etc.. mas também dor emocional, de pessoas que viram seus pais e filhos serem mortos e foram tratados como vermes, por isso a vida nos campos de concentração causou muitos traumas aos judeus, ciganos.. É natural que após passarem este tempo terrível de suas vidas os antigos prisioneiros se negarem a contar detalhes sobre seus piores pesadelos e reviver o pior período de suas vidas. Afinal é preciso muita coragem e determinação para esquecer o passado e continuar vivendo tranquilamente como se tudo aquilo não passasse de um pesadelo, que num fechar de olhos pode ser relembrado involuntariamente.

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